UNESP FAAC

Agradeço de todo o coração a vocês, meus amigos, namorada e família, que me apoiaram, incentivaram, contribuiram e (princiapalmente) me aguentaram durante esse processo. Agradeço especialmente à equipe da Kaerea, pelo aprendizado que tornou possível a realização da metade digital do projeto. À professora Cássia Carrara, pelas dicas importantes na área tipográfica. Ao meu orientador Dorival Rossi, por incentivar e confiar nos meus devaneios e idéias mirabolantes.

Resumo:


A grande utilização das mídias digitais na comunicação nos leva à recontextualização da função desempenhada pela mídia impressa. O presente estudo discute este cenário através da produção de um objeto -um livro- veiculado em ambas as mídias.

Contextualização Histórica:


Grande trunfo de nossa espécie, a transmissão e perpetuação do conhecimento através da escrita, remonta 4000 anos no passado e deve parte de seu sucesso à invenção de um material muito prático: o papel. Pedra, argila, madeira, todos tiveram seu momento, mas nenhum abrigou tão confortavelmente nossas palavras como este tecido.

Esta superfície maleável acompanha e sustenta a escrita desde o ano 105 A.C., segundo vestígios de sua invenção na China. A funcionalidade e durabilidade da comunicação escrita elevaram-na aos mais altos patamares. Os poucos que a controlavam detinham poder. Dessa forma livros tornaram-se objetos cultuados e restritos, considerados sagrados ou hereges.

Em segundo momento, a prensa de tipos móveis, desenvolvida inicialmente na China, em 1040 e aprimorada por Guttenberg, na Alemanha em 1452, acelera exponencialmente a veiculação de impressos e contribui para diluir o controle da comunicação, democratizando esta. O status desse meio de comunicação estava consolidado.

Nem mesmo as invenções do século XIX, como o telégrafo, o telefone e o rádio, que tornaram a comunicação instantânea e abrangente, puderam abalar profundamente essa posição hegemônica do impresso. Mais próximo disso chegou a televisão, com sua grande profusão e popularização, ao absorver grande parte do publico do entretenimento. Mesmo assim, as notícias, as publicações científicas ou os comunicados oficiais ainda parecem adotar o impresso como fonte de credibilidade. De fato, essa estrutura só se viu em perigo com a proliferação dos micro computadores criados nos anos 70 e da internet, em meados de 1994. As bases desse veículo milenar de comunicação estavam -literalmente- se desmaterializando.

Essa nova mídia é etérea, virtual. Não representa uma alternativa à escrita como o som do rádio ou a imagem animada da televisão, e sim uma alternativa ao papel. Uma alternativa ao suporte da escrita. Pedra, argila, madeira, papel e agora temos uma nova superfície para escrever –uma superfície imaginária.

Sabemos que o computador muito mais do que simular uma máquina de escrever, pode exercer função de tela de pintura, de estúdio fotográfico, televisão, rádio e videogame, com qualidade similar, quando não superior. Entretanto no que compete a leitura fica a em aberto a questão.

O cinema era, em seu princípio, algo como teatro filmado, parecia não perceber ainda todas as novas possibilidades e características de seu próprio formato. De maneira semelhante, também o hipertexto acabou por se basear no texto convencional, tomando para si padrões e até mesmo limitações. Sobre isso, Theodore Holm Nelson, projetista do Projeto Xanadu -um dos princípios do hipertexto- dá sua própria observação.

“Esse também foi um legado chave da Xerox PARC. Os caras da PARC ganharam muitos pontos da direção da Xerox ao fazer o 'documento eletrônico' IMITAR O PAPEL – em vez de ampliá-lo para incluir e mostrar todas as conexões, possibilidades, variações, parenteses, condicionantes que estão na mente do autor ou do orador; em vez de apresentar todos os detalhes que o repórter enfrenta antes de cozinhá-los.”

De fácil reconhecimento, é o fato de que o monitor é consideravelmente diferente do papel, fora suas proporções usuais, um monitor de tubo emite luz -podendo cansar a visão- enquanto uma folha de papel apenas reflete a luz que incide sobre ela. Some-se a isso a observação de Ellen Lupton:

"A impaciência do leitor digital vem da cultura, não da natureza da tela. Os usuários de sites têm expectativas diferentes dos usuários de impressos. Eles querem sentir-se 'produtivos', não contemplativos."

Ou seja, como todo o ambiente é diferente, um projeto diferenciado se faz necessário.

O presente trabalho se propõe a analisar esta questão, focando o que tem sido desenvolvido na produção de livros analógicos e digitais. Como produto resultante da pesquisa, a elaboração e projeto gráfico de um livro a ser distribuído nas duas mídias.

Análise de Similares e Revisão Bibliográfica


“Percebi que o que eu mais gostava era do design de livros por uma razão muito simples: o livro é na verdade, a única modalidade de impresso feita para durar"
Lars Müller

Realmente, do espectro das produções gráficas, os livros são dos que têm expectativa mais longa. Talvez este seja um dos motivos pelos quais livros criam vínculos afetivos com seus donos. Alguns livros tem papel importante na educação e formação do indivíduo. São transmitidos por gerações dentro de famílias. Podemos deduzir um pouco sobre a personalidade de uma pessoa pelos livros que esta leu ou nos recomenda. Segundo Caroline Roberts:

“A relação com os livros, para muitos começa muito cedo, com o salutar ritual na infância de leitura na cama. Além de se tornar uma experiência de ligação entre pais e filhos, os livros representam uma porta de entrada para um mundo de fantasia, alimentando a imaginação das crianças e propondo novas maneiras de pensar e novas ideias.”

Livros tornam-se objetos culturais dotados de aura. Livros são objetos de design.O surgimento dessa aura não deve-se somente ao conteúdo do livro, mas à todas as suas características. Ao seu projeto. Sendo este um trabalho de design que busca analisar relações entre publicações impressas e digitais, serão observadas em especial as relações antagônicas entre estas. Para tanto começaremos por analisar o livro convencional, sua definição e características de seu projeto.

Livro Analógico


Livro é um volume transportável, composto por páginas encadernadas, contendo texto manuscrito ou impresso e/ou imagens e que forma uma publicação unitária (ou foi concebido como tal) ou a parte principal de um trabalho literário, científico ou outro.
Wikipedia

Um livro divide-se em muitas partes, como capa, sobrecapa, página de guarda, folha de rosto e assim por diante, mas poderíamos dividir basicamente o projeto gráfico de um livro em:

  • Identidade – conjunto de cores, símbolos e ilustrações que compõe a obra;
  • Tipografia – Definição das proporções da página, diagramação e escolha de tipos;
  • Acabamento – papéis a serem utilizados, encadernação, e técnicas especiais de pré ou pós-impressão;

Principalmente no último quesito é que identificamos grande parte das diferenças entre as duas mídias. Com os recursos computacionais de hoje, os itens “identidade” e “tipografia” não só podem ser reproduzidos, como normalmente são gerados nessas plataformas. Entretanto, o item “acabamento” trata justamente de aspectos físicos do objeto que dificilmente podem ser reproduzidos, talvez apenas simulados.

É o caso dos livros pop-up, por exemplo. Geralmente livros infantis, onde movimento de abrir as páginas faz com que uma dobradura salte da página, ganhando perspectiva.

Fig. 1- Alice no País das Maravilhas -exemplo de livro pop-up

Neste caso, o projeto é feito exclusivamente para a impressão, pois só é possível apreciar seu conteúdo tendo o livro em mãos. Outro exemplo disso é o livro Mined projetado por Andreas Laeufer que utiliza o acabamento -ou a falta dele- para interagir com o leitor, q se vê obrigado a recortar e rasgar o próprio produto para poder continuar lendo.

Fig. 2- Mined, de Andreas Laeufer -o livro tem de ser rasgado para ser lido

Ainda utilizando o próprio acabamento como forma de comunicação, o livro Das Buchobjeckt de Robert Schäfer vem numa caixa, envolto em suas próprias rebarbas, formando uma espécie de ninho.

Fig. 3- Das Buchobjekt, de Robert Schäfer, utiliza seu próprio acabamento como forma de linguagem

Um pouco mais simples do que isso, mas não menos interessante, é o livro The Smiths, produzido pelo estúdio COMA. Neste livro a capa foi revestida de veludo, o que proporciona não só uma suave textura visual, mas uma sensação no toque impossível de se reproduzir digitalmente com nossa tecnologia convencional.

Fig. 4- The Smiths, do estúdio COMA, utiliza o tato como linguagem

Livro Digital

Tendo compreendido a estrutura básica de um livro convencional, volta-se o foco para as publicações digitais, os diferentes tipos de e-book. E-book é o termo inglês para livro eletrônico, hoje já bem difundido, mas aparentemente não bem definido. O espaço virtual tem especificações diferentes do universo físico em que apreciamos nossos livros, por tanto seria um engano presumir que livros digitais devam se parecer com livros convencionais. No ambiente virtual não falamos em superfícies ou materiais, mas em plataformas ou tipos de arquivo. Dessa forma identificamos diferenças em publicações digitais tão gritantes quanto um rascunho à lápis e uma edição de luxo de um romance. Assim tomou-se a liberdade de separar os textos eletrônicos em duas categorias simples: Textos desenvolvidos para esse ambiente e textos transportados para esse meio.

Entre os textos transportados para o meio digital, voltamos a ter inúmeras diferenças. Muito comuns são os livros onde apenas seu conteúdo verbal é transportado, em detrimento dos aspectos estéticos originais. É possível, por exemplo, baixar o livro A Cura Quântica do Dr Deepak Chopra, em formato TXT (texto plano) sem seus diagramas e ilustrações. Em alguns arquivos, nem mesmo o número de páginas é respeitado, pois a proporções originais também não são mantidas.

Fig. 5- Comparação entre livro original e versão no formato TXT

Também apresenta esta falha o aparelho Kindle, vendido pela loja norte-americana Amazon. O aparelho é um leitor portátil de e-books, que resolve alguns dos problemas da leitura digital, como a falta deportabilidade e o desconforto causado pela emissão de luz. Sem negar a validade e vantagem dessas inovações, entretanto, não podemos deixar de notar que a tela monocromática impossibilita o transporte da identidade visual de algumas obras bem como ilustrações coloridas. Além disso, uniformizar o tamanho de página e possibilitar a variação do tamanho das fontes descarta o trabalho do tipógrafo da versão original. O livro Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst, por exemplo, faz uso de suas margens e famílias de tipos para exemplificar seu próprio conteúdo. Esses detalhes são perdidos nessa plataforma.

Fig. 6- O leitor digital Kindle, da Amazon

Escapam desse problema os livros integralmente digitalizados. Sites como o Scribd ou o Google Books, por exemplo, utilizam um sistema de OCR (Optical Character Recognizer) para identificar palavras na imagem digitalizada, integrando-o em seu sistema de pesquisa. Permitem assim, que o usuário vasculhe o texto a procura de verbetes específicos.

Fig. 7- Página do Google Books, que permite buscar palavras dentro do texto escaneado

Na maioria das vezes, esses livros digitalizados estão no formato PDF (Portable Document Format), que permite a união em sequência das páginas escaneadas. Os visualizadores deste tipo de documento permitem ampliar ou reduzir a imagem para a melhor visualização na tela, podem também sequenciar as páginas em pares, permitindo apreciar efeitos de páginas duplas.

Fig. 8- Arquivos em PDF permitem visualizar efeitos de página dupla

Já os livros desenvolvidos para o ambiente virtual não se prendem às mesmas configurações que os livros originalmente impressos. Pelo contrário, estes têm outra estética, outra métrica, proporções e fluxo. Nessa categoria enquadram-se os blogs, que comportam-se algumas vezes como narrativas em fascículos, sem fim definido e as narrativas não-lineares onde o usuário dá continuidade à leitura de acordo com suas ações na tela. Também temos quadrinhos não sequenciais que permitem uma multiplicidade de histórias a se formar, como o Grafik Dynamo! ou Mimi's Last Coffee de Scott McCloud, que permite multiplas ramificações da mesma história.

Há também os livros que abdicam de páginas mas mantém capítulos e seções, como os corriqueiros manuais de assistência e suporte. Dessa maneira também se apresentam sites como o The Literature Network onde temos um índice e a lista dos capítulos, permitindo ao usuário navegar entre eles na sequência em que quiser, possibilitando a passagem instantânea entre trechos distantes. Frenquentemente há links que levam o leitor a diferentes momentos da obra, bem como links externos, que redirecionam para outros sites, aumentando a dimensão da leitura.

Fig. 9- Exemplo de índice de capítulos em livro digital sem páginas

Por fim, uma outra ferramenta têm se mostrado bastante popular. São os livros animados, ou flipping-books que utilizam recursos de animação e interatividade, simulando a leitura de um livro convencional mas agregando a ele recursos multimídia. Recentemente os jornais Folha e Estado de São Paulo, lançaram seu conteúdo nessa plataforma.

Fig. 10- Ideafixa- exemplo de e-zine
Fig. 11- Viziomag- inclui vídeos em suas páginas
Fig. 12- Folha de São Paulo- adotou esta plataforma para disponibilizar seu conteído on-line

A partir dessa análise foi possível perceber características interessantes no livro material e no livro virtual, apontando possíveis pontos de convergência relevantes para o desenvolvimento de um projeto integrado.

Desenvolvimento do Projeto


“Um livro é um espelho flexível da mente e do corpo. Seu tamanho e proporções gerais, a cor e a textura do papel, da cola e da tinta, tudo se mistura ao tamanho, à forma e ao posicionamento dos tipos para revelar um pouco do mundo em que foi feito.”
Robert Bringhurst

Segundo Bringhurst, o primeiro passo do projeto de um livro é fazer o reconhecimento de seu conteúdo. Algo como a etapa de decupagem na edição de audiovisuais, onde se demarca o tempo onde ocorrem eventos significativos na peça.

A análise revelou que o texto contém:

  • um capítulo introdutório, ou prefácio
  • 14 capítulos, sendo 3 muito curtos
  • 14 citações introdutórias
  • 12 citações no texto corrido
  • 8 notas do autor
  • 9 notas de referência bibliográfica
  • 4 listas no texto corrido, sendo duas com títulos
  • uma lista bibliográfica
  • um capítulo apêndice

Além disso o texto apresenta palavras estrangeiras, jargões, títulos de obras, acrônimos e “palavras-conceito” cujo sentido é mais amplo do que o convencional. Mostrou-se importante ter em conta esses elementos pois necessitam de atenção especial e distinção no texto.

O segundo passo é absorver e interpretar o conteúdo, captando ao que a obra se propõe. Como conceito geral, percebe-se que o texto utiliza a linguagem do design como mote para falar sobre temas mais amplos, como ética e espiritualidade. Busca, com isso, sugerir ligações entre diversas áreas como a prática do design, ciência contemporânea e culturas antigas e por fim incitar a curiosidade do leitor para além do texto.

Os resultados dessa etapa de análise servem como requisitos projetuais para o desenvolvimento do produto. Com isso iniciamos o desenvolvimento de cada aspecto do livro, tendo em vista as opções que melhor dialogam com os dados levantados.

Tipografia

-proporções

“O tipógrafo deve analisar e revelar a ordem interna do texto da mesma maneira que um músico deve revelar a ordem interna da música que interpreta. Mas o leitor, assim como o ouvinte, deveria, em retrospecto, poder fechar seus olhos e enxergar aquilo que jaz por trás das palavras que esteve lendo.”
Robert Bringhurst

Tomando a produção de um livro como a composição de uma música, temos o tamanho da página -a proporção entre altura e largura- como um baixo contínuo e a proporção entre página e mancha de texto como o tom base da música. Levando essa comparação um pouco mais longe, foi feita uma breve improvisação no violão variando temas até encontrar uma melodia que parecesse expressar melhor o sentido do texto. Chegou-se nas notas Dó, Mi Bemol e Sol, que configuram uma tríade menor, que foi traduzida para tamanhos padrão de papel, na página de 19x14cm. Esse procedimento encontra respaldo na colocação de Bringhurst:

“Essa diferença constitui um acorde primário, que gera energia e harmonia na página. Ele é complementado por harmonias secundárias geradas pelas proporções das margens e pela posição do bloco de texto.”

Esse tamanho de página refere-se à proporção entre Dó e Mi Bemol. A proporção entre Dó e Sol -que gera um intervalo de quinta- é um reforço do tom, e foi traduzido no posicionamento do bloco de texto e as consecutivas margens. O bloco -que contém cerca de 66 caracteres por linha- foi posicionado de acordo com as proporções áureas obtidas segundo o diagrama abaixo:

Fig. 13- Diagramação da página

Com esse diagrama também foram obtidos espaços para notas laterais e de rodapé, bem como fólios e títulos correntes.

Tipografia

-fontes

Devido às exigências feitas pelo texto, levantadas na análise do conteúdo, foi necessário escolher uma família tipográfica que, além de boa para a leitura contínua, tivesse recursos suficientes para atender a demanda. Foi escolhida a fonte Caslon, uma família serifada, com versões itálico, negrito e versalete, editada por Carol Twombly, baseada nos tipos barrocos de William Caslon e disponibilizada pela Adobe.

Fig. 14- Adobe Caslon Pro e suas aplicações no texto

Para os títulos, o objetivo foi apontar a mistura de assuntos abordados no livro. Tal efeito poderia ser sugerido com uma fonte híbrida ou semi-serifada. A escolha foi a Museo, de Jos Buivenga, disponibilizada pela Exljbris. É uma fonte de cor escura que cria um bom contraste com o texto.

Fig. 15- Museo e suas aplicações no texto

Tipografia

-capitulares

O texto faz uma referência à ideologia de William Morris -artista pré-rafaelita, considerado um dos pensadores do design na época da Revolução Industrial- no sentido de valorizar a ligação do homem com a natureza e a dedicação e amor ao ofício. Os trabalhos de Morris eram ricos em detalhes e dentre eles destacaram-se suas capitulares. Em homenagem a esse designer e também como forma de tornar o texto mais cativante, optou-se por incluir iniciais ornamentais. Foram desenvolvidas ao todo 15 capitulares, uma para cada capítulo mais uma para o prefácio posicionadas com um rebaixamento de três linhas. A fonte utilizada foi desenhada especialmente para o projeto e decorada de acordo com o conteúdo de cada capítulo. Trataremos mais sobre a decoração no próximo tópico.

Fig. 16- desenvolvimento das capitulares

Identidade Visual

-ilustrações

“É, pois, de um tema dado que o ilustrador terá que realizar sua obra, fixando com a força da sua personalidade os elementos sugeridos. Nesse trabalho de penetração e análise é que se percebe a nítida autonomia dessa arte autêntica, arte paralela à literatura, harmônica como as notas de contraponto. Tarefa difícil essa de captar, no tumulto das frases, as imagens plásticas que devem corresponder ao mesmo sentimento, às vezes mesmo esclarecer mistérios das palavras.”
Santa Rosa

Verificou-se que o texto não depende de ilustrações explicativas, infográficos ou diagramas. A independência do texto poderia significar o descarte das ilustrações ou a liberdade destas. Tirando proveito desta liberdade poética, foi decidido que as ilustrações tentariam ampliar os horizontes do texto e despertar curiosidade ao criar uma espécie de linguagem cifrada utilizando elementos simbólicos de diferentes culturas misturados, numa amálgama semelhante às correlações que a obra faz. Seguiu-se um período de pesquisa e estudo sobre culturas antigas buscando -chinesa, hindu, maia, egípcia, grega, entre outras- símbolos e grafismos característicos e significantes de cada uma, e, enfim, a definição de alguns elementos-chave que adornariam as capitulares.

Fig. 17- diagrama e simbolismo das capitulares

Como o conteúdo do livro se mostra auto-suficiente temos a ilustração como um acompanhamento. Retomando a metáfora da música, teríamos um solo. Solo é o momento onde um dos instrumentos tem destaque por um espaço de tempo determinado. Na música erudita o solo é geralmente definido em partitura, mas na música popular esse momento abre espaço para improvisos que exprimirem técnica e características pessoais do artista. O solo pode estar em harmonia com a música música ou ser dissonante, conferindo outra atmosfera à composição. Importar esta rica performance como conceito para as ilustrações permitiu maior liberdade de expressão aos desenhos, sendo feitos à mão em técnica de traço. A metáfora ajudou também a pontuar melhor a inserção das imagens, que nos primeiros testes eram simplesmente encaixadas nos espaços em branco. A valorização das ilustrações como um momento de solo, levou à criação das páginas de abertura de capítulo, inicialmente descartadas pela existência de capítulos muito curtos.

Fig. 18- diagramação das ilustrações no texto - antes e depois

Identidade Visual

-grafismos

O I Ching permeia o texto todo, desde o título ao apêndice. Pode ser associado inclusive às mudanças de assunto e ao aprimoramento pessoal defendido no texto. Portanto, desde as primeiras primeiras ideias do projeto havia a intenção de utilizar mais efetivamente esta simbologia. Eles estão presentes nas capitulares, pois representam o sentido geral de cada capítulo através de seu próprio nome e significado. Com o desejo de preparar o livro material para uma possível interação com a webcam e a internet, fez-se necessário a inclusão de algum desenho simples e de alto contraste, pois é uma exigência da tecnologia que permite este tipo de interatividade. Sendo os hexagramas compostos por apenas 6 linhas, abertas ou fechadas, só foi necessário adicionar uma borda à eles para que a interação funcionasse. A criação das aberturas de capítulo proporcionou um espaço mais propício para a inclusão destes elementos.

Fig. 19- diagramação dos hexagramas no texto - antes e depois

Para o verso dessas páginas foram preparadas texturas fractais geradas com ajuda do programa Chaos Pro. Esses fractais são do tipo L-System, baseados no sistema de progressão mapeado pela bióloga botânica Aristid Lindenmayer. Os fractais escolhidos podem ser enquadrados num sub-tipo, denominado “curva de preenchimento espacial”. Ou seja, são formados por uma única linha, cuja trajetória tende a ocupar todos os espaços vazios, formando grandes texturas. Muitas dessas figuras são definidas por fórmulas cujos padrões foram documentados e nomeados, entretanto, as texturas das páginas 72, 86 e 92 foram produzidas a partir de fórmulas desenvolvidas especialmente para o projeto.

Fig. 20- verso da página de abertura de capítulo - exemplo de fractal

Identidade Visual

-capa

A capa foi o elemento que mais sofreu alterações. Partiu de um rascunho livre, inspirado apenas pelo som de Sun Ra, jazzista citado no livro. Esse rascunho foi reconstruído utilizando os elementos definidos para as ilustrações e capitulares. No entanto, a criação das aberturas de capítulos fez com que essa ilustração ficasse sem correspondência com o interior do texto. Para criar uma identidade visual coesa, elegeu-se, para a capa, o primeiro hexagrama -qián- cujo nome significa "O Criativo" no sentido de poder criador, fazendo perfeita alusão ao tema design e os desdobramentos filosóficos a que o texto se propõe. As cores da capa fazem referência direta à preferência pessoal do autor, muito utilizadas em suas produções. Para a nova ilustração, mais uma vez recorreu-se ao jazz e em seguida a reconfiguração com a simbologia adotada.

Fig. 21- desenvolvimento da capa

Acabamento

A ilustração da capa e contra-capa foram impressas apenas em aplicação de verniz, fazendo com que a ilustração só seja visível em alguns ângulos, levando o leitor a interagir com o livro de forma dinâmica, inclinando e tateando o objeto. Assim se configura uma característica irreprodutível no ambiente digital como temos hoje.

Fig. 22- detalhe do acabamento

E-book

-formato

Para a criação da versão digital do livro a análise de similares revelou que apesar de o formato preferido para a leitura ser o PDF, o formato flipbook também vem sendo muito utilizado, e se mostrou mais adequado às expectativas do projeto. A simulação do livro tradicional, não só permite que efeitos de páginas duplas e frente e verso sejam respeitados, como também pode criar uma reação interessante ao se aproveitar da aparente familiaridade e surpreender inserindo algo novo. Esse efeito é obtido, por exemplo, ao adicionar sons e interatividade nas ilustrações, como nas páginas 25 e 57.

-hiperlinks

Definido esse formato, voltamos ao reconhecimento do texto, desta vez em busca dos verbetes que pudessem configurar links externos que ampliassem o conteúdo. Foram estabelecidos cerca de 200 hiperlinks, podendo ser palavras, nomes, ilustrações e grafismos. Todos foram deixados invisiveis por padrão, só podendo ser encontrados a partir da movimentação do mouse sobre a página. Dessa forma preserva-se a integridade da identidade visual e a legibilidade da obra, além de criar uma navegação mais lúdica.

Fig. 23- exemplo de hiperlinks no texto

-animações

Para cada ilustração no livro analógico foi criada uma animação curta no livro digital. Assim temos 14 pequenas animações, que podem estar em loop ou esperando para serem ativadas pela interação do usuário. Também podem conter sons e links.

Fig. 24- exemplo de ilustração animada

-Realidade Aumentada

A Realidade Aumentada é um recurso de interatividade onde o programa mapeia em bitmap as imagens enviadas pela câmera e tenta localizar um padrão ou desenho pré-definido pelo programador. A partir deste reconhecimento, é possível posicionar na cena objetos virtuais em tempo real. Para tanto, a tecnologia atual exige que este padrão pré-definido seja bem delimitado e em alto contraste. Pensando nisso foram desenvolvidos os hexagramas. A inserção deste elemento permite que o proprietário de uma versão impressa do livro, munido de uma webcam, possa desfrutar dessa interação através do site do projeto. Criando assim, uma ponte entre as duas mídias.

Fig. 25- reconhecimento digital do hexagrama
Fig. 26- exemplo de objeto virtual interagindo com o livro impresso Conclusão:

Finalizado o projeto, foi possível perceber que realmente as expeculações sobre o fim dos livros impressos estão longe de serem verdadeiras. O apreço pelo objeto livro e seu potencial carismático ainda são indiscutíveis. Entretanto, mostra-se necessário o fim do livro como o conhecemos. A evolução tecnológica trouxe novas questões à tona, entre elas a consciência ambiental e a democratização do conhecimento.

Pensando nisto, uma migração do papel para a web parece -a primeira vista- pertinente. Porém, falhará se for feita de maneira brusca. O livro material possibilita um vínculo mais afetivo e introspectivo com o leitor, ao passo que o ambiente virtual exige que se estimule a interação -o dinamismo deve estar presente para tornar o objeto virtual atrativo. Isto mostra que essa migração deve ser feita com criatividade, buscando explorar melhor as potencialidades de ambos os segmentos. O projeto se provou positivo e de acordo com esta consciência ao disponibilizar o conteúdo do livro on-line e gratuitamente sem, no entanto, desvalorizar a versão impressa. Isso foi possível ao explorar com atenção o acabamento desta. Foram pesquisados para o projeto acabamentos com texturas e aromas, mas mesmo o verniz convencional já se mostrou um fator relevante ao provocar curiosidade e interatividade. A preparação do livro para interação com a internet através da Realidade Aumentada também reforça essa característica.

Ficou claro também, que a linguagem da internet é tão ampla e tão diferente da do impresso que a simples tradução de uma obra para esse meio, descarta implacavelmente suas possibilidades. Por isso, mostra-se também necessária uma redescoberta do texto digital, que vem se sedimentando como cópia do papel.

Assim temos uma valorização de cada objeto por suas características intrínsecas, criando um diálogo entre as mídias e não uma disputa entre elas. Com isso podemos imaginar um futuro onde os textos não tenham de ser impressos aos montes para se transmitir as idéias. Pelo contrário, que as idéias saibam se transmitir pelas superfícies que melhor lhes comportam. E que assim liberem espaço para o livro de papel evoluir com projetos que o vejam como um objeto multimídia ou multisensorial.

Referências Bibliográficas:


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  • LUPTON, Ellen. Pensar com tipos: guia para designers, escritores, editores e estudantes. São Paulo. Cosac Naify, 2006

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